Início Geral EDUCAÇÃO | Eletrônicos: excessos na infância podem causar transtornos

EDUCAÇÃO | Eletrônicos: excessos na infância podem causar transtornos

Guilherme Athayde
jornalismo@riovalejornal.com.br

As novas tecnologias trazem infindáveis benefícios à população humana: desde inovações que salvam vidas em hospitais, até instrumentos que servem para auxiliar as populações nos rincões mais inóspitos do planeta, melhorando serviços como os de saneamento básico, segurança, e também na educação das crianças e jovens.

Porém, especialistas têm sido cada vez mais específicos. A era digital trouxe inúmeras facilidades e novas formas de interação, mas também trouxe consigo desafios, especialmente para o desenvolvimento infantil. O uso excessivo de eletrônicos por crianças tem se tornado uma preocupação crescente entre pais, educadores e profissionais da saúde. A exposição constante a telas, smartphones, tablets e computadores pode ter consequências negativas para a saúde física e mental das crianças, afetando desde o sono e a alimentação até o desenvolvimento cognitivo e social.

Segundo o psiquiatra Fernando Neves, mestre em biotecnologia e que trabalha com saúde mental, equilíbrio emocional e crescimento pessoal de pais e mães, um dos principais pontos de desequilíbrio do uso de eletrônicos como celulares e laptops por crianças em desenvolvimento é a falta das brincadeiras que estimulam os jovens.

“A criança não brinca. E o brincar é fundamental para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social da criança. O brincar, fantasiar, imaginar. E a criatividade envolvendo o brincar é fundamental. O eletrônico não estimula a interação social, porque é direto no aparelho, não estimula o fantasiar, porque já está entregue a história, o enredo do jogo ou do que está assistindo”, aponta o psiquiatra, que classifica o abuso de eletrônicos como “o sequestro da infância”.

“Isso está se mostrando nocivo com crianças, com muito baixa capacidade de socialização, falta de ferramentas para o equilíbrio emocional, pouca ou nenhuma atividade física, são crianças mais sedentárias, o eletrônico faz a pessoa ficar parada ou sentada, não pega sol. O sedentarismo favorece a obesidade, pois são crianças que não são ativas fisicamente”, completa o especialista.

Além dos problemas físicos, como obesidade, o excesso dos eletrônicos durante o desenvolvimento infantil também está ligado com o aparecimento de doenças mentais, como ansiedade e depressão, como aponta Neves. O uso de celulares e redes sociais dificulta o aprendizado emocional e o enfrentamento de situações da vida que as crianças precisam passar, aponta o psiquiatra.

“Não há uma tolerância à frustração, e ao tédio, ao aguardar. E isso a gente vê muito quando começam a surgir situações na vida em que há uma imposição de que se tem que aguardar. Um tédio que essas crianças e adolescentes não conseguem tolerar. Aí elas adoecem e começam a desenvolver quadros de ansiedade, depressão, automutilação, que é um problema muito sério na adolescência. Isso está relacionado com essas situações, com o consumo excessivo de eletrônicos. Mais uma situação é a seguinte: essa característica da internet, de serem coisas curtas e rápidas, roda pra cima o ‘feed’, isso faz com que a nossa atenção vá sendo destruída. Ela fica fragmentada. Não significa que todo mundo tem transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), mas o consumo excessivo e frequente de redes sociais, celular, seja o que for, destroi, fragmenta a atenção”.

Celulares nas escolas agora são proibidos por lei federal

O uso de aparelhos celulares em sala de aula por estudantes das escolas públicas e particulares de todo o Brasil está proibido. A lei, que restringe o uso inclusive nos intervalos e no recreio, foi sancionada pelo governo federal no dia 13 de janeiro, abrindo algumas exceções que envolvem projetos pedagógicos com o uso dos aparelhos.

O vice-diretor do colégio Marista São Luís, de Santa Cruz do Sul, Anderson Roberto dos Santos, destaca que, apesar de os aparelhos celulares serem benéficos em vários aspectos, o uso dos telefones na escola é pedagógico, e apenas a partir do sexto ano do ensino fundamental.

“A escola oferece o laboratório móvel com dispositivos para uso dos estudantes, porém era permitido ao estudante que tivesse seu dispositivo utilizar, nesse momento. Nossas normas de convivência de maneira clara orientavam os estudantes que uso dos dispositivos era somente sob a orientação do professor para finalidade orientada por ele. No restante do tempo os celulares deveriam estar desligados e guardados. Tendo as medidas definidas para casos em que a regra não fosse respeitada. Funcionava muito bem este acordo pois a clareza do regramento ajuda no processo educativo”, aponta o educador.

Anderson alerta ainda que a educação sobre o uso correto destes dispositivos também é função dos pais, em casa. A escola norteia a utilização saudável sobre o tempo gasto dos jovens com os eletrônicos, mas o principal é papel do pai e da mãe.

“Trabalhamos inclusive com os pais o tema da conexão segura, que versa sobre o uso das telas, bem como o acompanhamento necessário das crianças na internet. Tudo que não é mediado pode gerar problemas. Quando esse uso é livre, tanto em casa quanto na escola, o estudante perde atenção, não interage, pode acessar uma infinidade de materiais que as vezes não são adequados, não passaram por um filtro e podem ser tomados como verdades”.

Para o psiquiatra Fernando Neves a nova legislação dobre os celulares em sala de aula será uma boa maneira de as pessoas perceberem os benefícios de manter os jovens sob cuidado ao manejar dispositivos eletrônicos e redes sociais.

 “Vai ser lindo de ver agora, na prática, que foi sancionada pelo governo a lei que proíbe o uso de celulares nas escolas, como as crianças vão, gradativamente, e os estudos mostram que em duas ou três semanas, elas começam a ficar mais focadas, o rendimento melhora, elas brincam mais, dá menos problemas, brigas e conflitos, menos dificuldades de relacionamento, pois elas começam a socializar e focam mais. Existem estudos onde as crianças decidiram não voltar a ter celular, ou não voltar para as redes sociais como faziam antes. Isso vai ser muito legal de ver, agora com essa mudança na legislação”, reforça o profissional.

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