A única cidade gaúcha campeã brasileira de basquete viveu de saudades por quase duas décadas. Santa Cruz do Sul, que liderada pelo técnico Ary Vidal revelou ao País uma torcida fanática, ficou 19 anos e cinco meses fora da primeira divisão nacional. A espera iniciada em maio de 2002 terminou com a estreia do agora União Corinthians no Novo Basquete Brasil (NBB), em outubro de 2021. Esta longa travessia virou livro. Na quarta-feira, 22, o jornalista Guilherme Mazui Roesler lançou 7 mil dias – A volta de Santa Cruz do Sul à elite do basquete.
O lançamento do livro ocorreu às 19h30 no Flâmula Sports Bar, e integra a programação da “Semana do Basquete”, organizada pela prefeitura de Santa Cruz do Sul para valorizar a presença da seleção brasileira na cidade. Haverá sessão extra de autógrafos no sábado, 25, na “Praça do Basquete”, às 18h na praça do bairro Santo Inácio. A equipe do técnico Gustavo de Conti enfrentará Porto Rico, na noite de hoje, 23, às 19h30, e Estados Unidos, no domingo, 26, às 21h10, no ginásio Poliesportivo Arnão pela última janela das Eliminatórias da Copa do Mundo 2023. O Brasil precisa de uma vitória para confirmar a vaga no Mundial.
O livro
Depois de recuperar em Corinthians do Ary Vidal (Editora Gazeta, 2019) a trajetória da Pitt/Corinthians no título brasileiro de 1994, Mazui aborda em seu segundo livro um processo de reconstrução. Uma retomada liderada por personagens da própria cidade, que eram jovens na década de 1990, quando Ary, técnico da seleção brasileira na conquista do Pan de Indianápolis (1987), colocou Santa Cruz no mapa do basquete.
Os protagonistas desta saga são torcedores do clube gaúcho, como o técnico Athos Calderaro e o diretor Diego Puntel, que jamais se conformaram com o adeus do time adulto das competições nacionais. Juntos, superaram a carestia de patrocínios e a pandemia de Covid-19 para chegar ao NBB.
“O livro conta uma história de torcedores que deixaram as arquibancadas para reconstruir o time da cidade. O livro também mostra a dificuldade que é viabilizar o esporte profissional no interior do país, a batalha para reabrir uma equipe de alto rendimento, para reunir patrocinadores”, diz o jornalista.
“Uma vez campeão brasileiro e duas vezes vice (1996 e 1997), o Corinthians fechou a equipe adulta nos anos 2000, mas Santa Cruz nunca deixou de gostar de basquete. Manteve a formação de atletas, tem liga municipal e tentou seguidas vezes o retorno. Ficou no imaginário do torcedor o ritual de filas para entrar no ginásio e assistir a jogadores de seleção e norte-americanos em partidas disputadíssimas. Para uma comunidade vocacionada ao basquete, foi doloroso viver somente de saudades”, acrescenta o autor.
Com 196 páginas, o livro é uma produção independente, com edição do jornalista Ricardo Düren. A obra contempla um período de mudanças, frustrações e realizações entre 2002 e 2021, da despedida corintiana da primeira divisão até a temporada de estreia no NBB.
Depois da saída de Ary, em 1997, o Corinthians Sport Club decaiu. Em 2002, disputou sem sucesso o Campeonato Brasileiro, também chamado de Liga Nacional, e falhou ao tentar a classificação na temporada seguinte. A derrocada se acentuou. Tentativas de retorno fracassaram, e o tempo passou. Surgiu o NBB, que se tornou a principal competição de clubes do país, e o Corinthians passou por uma fusão. Do enlace com o Clube União, uma agremiação social, nasceu o Esporte Clube União Corinthians.
O União Corinthians iniciou em 2017 o projeto de retomada em curso. O clube fortaleceu as categorias de base e, em 2021, reabriu a equipe adulta. Retorno com título. O time conquistou o Campeonato Brasileiro organizado pela Confederação Brasileira de Basketball (CBB), que serviu de trampolim para o NBB. Em outubro de 2021, a estreia na competição, diante do Minas Tênis no Arnão, marcou o esperado regresso à primeira divisão.
“O título do Brasileirão da CBB mesclou boas lembranças com esperança, criou o clima para viabilizar o NBB. Uma geração inteira de torcedores, que se informou sobre os feitos da Era Ary Vidal por relatos de amigos e familiares, ou por buscar fotos e vídeos na internet, não sabia como era ver no Arnão um jogo de alto nível. E quem presenciou a Era Ary Vidal gostaria de ir ao ginásio novamente. O retorno uniu essas gerações, fortaleceu a perspectiva de passar a paixão pelo basquete de pais para filhos”, diz Mazui.
Na temporada de retorno à elite, o União Corinthians foi o 16º colocado dentre os 17 participantes da 14ª edição do NBB. Apesar de não ter avançado aos playoffs, o torcedor comemorou jornadas inesquecíveis, como as vitórias em casa sobre São Paulo – que na sequência foi campeão continental – e Franca – que conquistou o NBB. Atualmente, o clube gaúcho está na sua segunda temporada no NBB.
“Se em 1994 a façanha foi conquistar o país, em 2021 o “título” foi disputar o NBB. O União Corinthians fez uma boa temporada de estreia, já que teve um dos menores orçamentos do campeonato. O clube mostrou que pode competir, mas que necessita de maior investimento. Torço para que mais empresas apoiem o projeto. A retomada não pode parar”, afirma Mazui.
Personagens
A volta de Santa Cruz do Sul à elite do basquete foi protagonizada em sua maior parte por santa-cruzenses que viveram a Era Ary Vidal. É o caso do técnico Athos Calderaro, que atuava nas categorias de base do clube quando Ary iniciou o trabalho na cidade. Armador, Athos sonhava em ser jogador, defendeu o Corinthians em competições oficiais, mas ouviu do próprio Ary que deveria investir na carreira de técnico. Por mais de duas décadas treinou jovens e militou na busca de patrocínios para reabrir a equipe adulta e disputar o NBB.
O sonho de Athos ficou mais próximo de se realizar a partir de 2017, com a entrada no projeto do empresário Diego Puntel, um antigo torcedor que assumiu a direção de basquete do clube e reorganizou o departamento. O ex-jogador Rogério Klafke, atleta olímpico e ídolo em Franca, também entrou no projeto, além de dois campeões brasileiros de 1994: o supervisor Fernando Larralde e o mordomo e massagista Luciano Hillesheim.
A presença do União Corinthians no NBB permitiu ao pivô Guilherme Teichmann realizar, aos 38 anos de idade, um sonho de infância. Catarinense, Teichmann cresceu em Santa Cruz e acompanhava do ginásio os jogos da Pony/Corinthians. Foi no Arnão que despertou o desejo de ser jogador. Contudo, quando retornou dos EUA após se formar e disputar a liga universitária, o clube gaúcho já estava afastado dos torneios profissionais.
Conhecido pelas enterradas, Teichmann foi campeão pan-americano com a seleção brasileira e defendeu Limeira, Flamengo, Franca, Rio Claro, Corinthians Paulista, Minas Tênis e Pinheiros. Prestes a se aposentar, realizou o sonho de atuar pelo time do coração diante de familiares e amigos.
Com duas temporadas pelo União Corinthians, Teichmann é um dos poucos atletas presentes nas 15 edições do NBB. Soma mais de 450 jogos pelo torneio, com 3,3 mil pontos, 1 mil assistências e mais de 350 enterradas.
“O livro também mostra a importância do espelho, dos ídolos no esporte. Crianças e adolescentes contagiadas pelo Corinthians do Ary Vidal recolocaram a cidade na elite do basquete e agora servem de inspiração para novas gerações de torcedores e jogadores”, diz Mazui.